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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Natal...

Natal é uma época difícil para cronistas. 
Eles não podem ignorar a data e ao mesmo tempo não há mais maneiras originais de tratar do assunto.
Os cronistas, principalmente os que estão no métier há tanto tempo, que ainda usam a palavra métier – já fizeram tudo que havia para fazer com o Natal. Já recontaram a história do nascimento de Jesus de todas as formas: versão moderna (Maria tem o bebê numa fila do SUS), versão coloquial ("Pô, cara, aí Herodes radicalizou e mandou apagá as pinta recém-nascida, baita mauca"), versão socialmente relevante (os três reis magos são detidos pela polícia a caminho da manjedoura, mas só o negro precisa explicar o que tem no saco) versão on-line (jotace@salvad.com.bel conta sua vida num chat sitc), etc.
Papai Noel, então, nem se fala. Eu mesmo já escrevi a história do casal moderno que flagra o Papai Noel deixando presentes sob a árvore de Natal, corre com o Papai Noel e não conta nada da sua visita para o filho porque querem criá-lo sem qualquer tipo de superstição várias vezes. 
Poucos cronistas estão inocentes de inventar cartas fictícias com pedidos para o Papai Noel: patéticas (paz para o mundo, bom senso para os governantes), políticas ("Só mais um mandato e eu juro que acerto, ass. Fernando") ou práticas ("Algo novo para escrever sobre o Natal, por amor de Deus!").
Já fomos sentimentais, já fomos amargos, já fomos sarcásticos e blasfemos, já fomos simples, já fomos pretensiosos – não há mais nada a escrever sobre o Natal! Espera um pouquinho. Tive uma idéia. Uma reunião de noéis! Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel. Acho que sai alguma coisa. 
Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos... onde? Na mesa de um bar? Papai Noel não freqüenta bares para não dar mau exemplo. Pelo menos não com a roupa de trabalho. No Pólo Norte? Noel Coward, acostumado com o inverno de Londres, talvez agüentasse, mas Noel Rosa congelaria. Não interessa onde é o encontro. Uma das primeiras lições da crônica é: não especifica. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos em algum lugar. Os três conversam. 

Noel Rosa – Ahm... Sim... Hmm...
Noel Rosa diz o quê?
Noel Rosa – E então?
Noel Coward e Papai Noel se entreolham. Papai Noel cofia a barba. Ninguém sabe, exatamente, o que é "cofiar", mas é o que Papai Noel faz, enquanto Noel Coward olha em volta com evidente desgosto por estar em algum lugar. Preferia estar em outro. A todas essas eu penso em alguma coisa para eles dizerem.
Noel Rosa (tentando de novo) – E aí?
Papai Noel – Aqui, na luta.
Noel Coward – What? 
 
Esquece. Não há mais nada a escrever sobre o Natal.
Salvo isto, se dão vênia: que seu Natal em nada lembre o da Chechênia. 
(Luís Fernando Veríssimo (espero que seja)).



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Então, eu encontrei Luis Fernando Verissimo...

Como eu havia dito sábado, o dia 18 de abril do santo ano de 2015 seria histórico para minha deprimente cidade e para mim, pois o Salão do Livro, feira de livros realizada pelo segundo ano consecutivo aqui em Lages, receberia a nobre visita de Luis Fernando Verissimo, um dos maiores (quiçá o maior) escritores brasileiros.

E lá fui eu assistir sua entrevista, que foi muito legal, muito mesmo, pois foi uma chance de conhecer melhor a mente e o estilo dele, que é uma pessoa extremamente simples para falar em público, extremamente humano, sem nenhuma vaidade e sem nenhum exibicionismo, fala com verdade, como se estivesse realmente conversando com você, expressa claramente sua inteligência e suas inspirações para escrever. Fiquei encantada com sua fala, sua perspicácia, tão latente nos livros e igualmente retumbante ao vivo.

A despeito de algumas saias justas na seção de perguntas abertas (para mim, esse negócio de o público fazer perguntas devera ser proibido por lei, pelo menos aqui em Lages...), prefiro não comentarrrrrrr... tampouco sobre algumas gafes imperdoáveis da organização do evento, que, talvez, não tenha se tocado de que Verissimo é um senhor de 79 anos, que merece o maior conforto possível para uma entrevista de uma hora e uma seção de autógrafos de duas. Não, afirmo, por ser famoso, de maneira alguma, mas por ser uma pessoa idosa.

Mas não quero bater na tecla das gafes, mas falar da minha experiência com o autor. Já havia ficado extremamente nervosa há alguns anos, quando tive a honra de conhecer Eduardo Spohr, e quase tive uma síncope quando cheguei perto do escritor para pedir seu autógrafo. Sim, tenho vergonha disso. Ontem não foi diferente. E, talvez, pior, afinal, era Luis Fernando Verissimo, um escritor consagradíssimo e que tem idade para ser meu avô. Estava nervosa, de livro na mão, subindo no palco para pegar o autografo, pensando no que falaria para ele, de que forma, e ao chegar ao seu lado NÃO FALEI NADA!

Simplesmente não tive coragem de falar. É claro que não faria como a maioria das pessoas sem noção que subiram para pegar o autógrafo, e, chegando no autor, davam discurso, com direito a tapinha nas costas e foto sorridente. Será que as pessoas não se tocam como deve - e é - ser cansativo ficar duas horas sentado em uma cadeira horrível parabéns organizadores dando autógrafo e ainda ter que aguentar os chatos que vem me contar a história da sua vida?

Como disse, não ia dar discurso, mas gostaria, ao menos, de agradecê-lo pela delicadeza de aceitar visitar nossa cidade maldita, e dizer a ele que suas crônicas fazem parte da minha vida desde meus 14 anos, e que seus textos ajudaram a moldar meu gosto literário. Queria apenas dizer isso. Porque os autores dos livros que lemos, sem querer, se tornam próximos de nós, falam conosco pelas suas histórias, pelas suas palavras. E assim foi Verissimo para mim, alguém que parece ser meu amigo quando leio seus livros e dou risada, tentando afastar os problemas. Estava lendo um livro dele, há dez anos atrás - acho que era O analista de Bagé - quando recebi a notícia de que meu padrinho havia falecido.

Não consegui dizer uma palavra sequer além de Boa noite, Larissa, e obrigada. Mas aqui está meu autógrafo, uma relíquia eterna, que guardarei com o maior carinho do mundo. Mais uma missão cumprida. Agora só falta conhecer a J. K. Rowling, o Umberto Eco, o Bernard Cornwell...


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Homem que é homem

Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.

HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.

HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.

E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.



Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!

Situação 1

Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique". Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf' que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!

Situação 2

Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.

Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.

Situação 3

Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:

— Se quiser usar o meu...

— O seu...?

— Joelho.

— Ah...

— Ele está desocupado.

— Mas eu não o conheço.

— Eu apresento. Este é o meu joelho.

— Não. Eu digo, você...

— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.

Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.



Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste pais se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de "Independência ou Morte", "Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!"? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? O Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.

HQEH nunca vai a vernissage.

HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.

HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.

Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.

Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".

Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".

Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.

HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.

Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.

(Luis Fernando Veríssimo. Para combater o politicamente correto.)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Desmoronando


 "O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo. O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc. Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “Pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido...” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava. Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto. Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.
No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minha costas. Em vez disso, ouvi a voz do dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto."


(crônica que Luis Fernando Veríssimo escreveu após sua passagem no hospital, quando quase morreu, em dezembro de 2012).

segunda-feira, 15 de abril de 2013

#365Livros - #Livro105 - COMÉDIAS PARA SE LER NA ESCOLA



Comédias para se ler na escola
Luis Fernando Veríssimo

Comédias para se ler na escola é uma coletânea da Editora Objetiva, com o intuito de levar as melhores crônicas de Veríssimo a crianças e adolescentes, especialmente, mas também a todos que admiram a boa literatura. Essa seleção foi preparada por ninguém menos do que Ana Maria Machado, cadeira n° 1 da ABL e atual presidente da instituição, Ana fez uma seleta escolha de crônicas que exploram as facetas da língua portuguesa, como em “Pá pá pá”, “Defenestração”, “Sexa”, as fábulas tortas de Veríssimo, como em “A Novata”, os equívocos, tão presentes nas crônicas de Veríssimo, aquelas situações onde tudo dá errado, como em “O homem trocado”, e, claro, as críticas sociais que Veríssimo tem uma acidez bem particular para fazer, explicitadas em “Direitos Humanos”. Sem contra nas clássicas “O Recital” e “Os classificados através da história”, além de tantas outras. Um exercício de leitura maravilhoso também para quem já saiu da escola.

segunda-feira, 25 de março de 2013

#365Livros - #Livro84 - OUTRAS DO ANALISTA DE BAGÉ



Outras do analista de Bagé
Luis Fernando Veríssimo

A imagem de um barbudo com cara de bronco e uma monocelha que faria o Monteiro Lobato ter pesadelos, vestindo toga e capelo, seria assustadora se não fosse cômica. Veríssimo segue a saga de um dos seus mais famosos personagens, uma das mais inteligentes críticas ao estilo espartano totalmente distorcido do gaúcho tradicionalista.
“SUA ESCOLA NA PSICANÁLISE: "Sou freudiano de carregar bandeirinha, mais ortodoxo do que rótulo de Maizena." SOBRE O FEMINISMO: "Toda mulher deve lutar pelos seus direitos, desde que não interfira nos serviços de casa." SOBRE A INFLUÊNCIA DA BOMBACHA NO MACHISMO GAÚCHO: "O gaúcho é o que é, porque a bombacha dava espaço. Uso bombacha até no consultório. Quando a ocasião é social uso as de enfeite do lado. Mas nada que brilhe, senão já é bichice. Pra apertar meus fundilhos, só mão de china..." SOBRE A SUA INFANCIA: "Normal. O que não aprendi no galpão, aprendi atrás do galpão." “SOBRE O REICH: "Esse tal de Reich, nem pra catá bosta. Reich, pra mim, é prenuncio de cuspida." SOBRE A SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE BAGÉ: "Eles me consideram uma rês desgarrada, porque sou muito radical. Só não me expulsaram ainda porque querem me capar antes.”

domingo, 10 de março de 2013

#365Livros - #Livro69 -COMÉDIAS DA VIDA PRIVADA



Comédias da vida privada
Luis Fernando Veríssimo

Mais uma vez, a emissora dona do Acre destruindo livros maravilhosos, mas que sob a direção deles, ficam horríveis!!! Comédias da vida privada reúne textos do cotidiano, coisas que podem realmente acontecer com qualquer um de nós. É dividido em seis partes – fidelidade e infidelidade, encontros e desencontros, eles e elas, família, pais e filhos e metafísica. Cento e uma crônicas carregadas do humor de Veríssimo.