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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Memórias do século XXI - Capitulo 5 (Marvin)

Capítulo 5

HIERARQUIA

Nos tempos primitivos, as posições hierárquicas eram decididas ou por competência ou por protecionismo. Mas levava uma vantagem quem acumulava mais diplomas. Tudo mudou a partir do momento em que foi implantado o sistema de “Transferência Integral de Informações”, pelo qual qualquer ser humano, quando completa 2 anos de idade, é acoplado a um megacomputador Deep Blue e absorve, em 15 minutos, o conhecimento acumulado pela espécie nos últimos dez milênios. Tem aí uma novíssima teoria dizendo que isso nos transformou numa raça de esponjas, e que o grande diferencial atual é saber pensar por conta própria, em vez de enfiar o dedo no nariz e dar um “retrieve”.Segundo a teoria, há uma minoria de pensantes que consegue se perpetuar nas chefias porque têm “Inteligência Psicoemocional”, ou seja, uma combinação balanceada de “instinto”, “conhecimento” e “autocontrole”. Eu acho que já ouvi isso antes, só que não me lembro bem quando foi.

RELACIONAMENTO

Os funcionários têm abertura para se comunicar fora do trabalho, desde que respeitem o conceito-chave do século XXII: Lógica Absoluta, ou seja, os assuntos devem ficar restritos aos negócios. Sentimentos e emoções, manifestações consideradas contraproducentes, estão proibidas desde 2104. Mas sempre tem quem não sabe aproveitar a liberdade: nosso maior problema social são os subversivos que se reúnem escondidos para praticar o maior delito da atualidade: rir e contar piadas. Não é por acaso que o maior best-seller desta semana é o cibertexto de autoajuda “Você Pode Ser Feliz, Desde Que Ninguém Saiba”.

(continua)

Leia também

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Memórias do Século XXI - por Max Gehringer (Capítulo 4)

EMPREGO
Conseguir um bom emprego hoje em dia não é difícil. O duro é se manter nele, porque as exigências para resultados de curtíssimo prazo aumentam cada vez mais. O tempo médio de permanência num emprego é de 28 horas. Daí o conceito em moda ser o de habilidade para saltar de galho em galho, ou “businessbilidade”, que se resume a três fatores: experiência cósmica, formação galáctica e ser bem relacionado com quem manda.
SEXO
As diferenças entre sexo não são mais limitantes para o preenchimento de um cargo. Não porque tenha acabado a discriminação, mas porque acabaram os sexos. A antiga classificação “masculino/feminino/outros” caiu em desuso a partir do momento em que os assim chamados “homens” e “mulheres” equilibraram seus níveis de testosterona e estrógenos. A ambivalência chegou a tal ponto que hoje os dicionários só registram a palavra “testículo” como sinônimo de “pequeno teste aplicado a estagiários”.
(continua)
Leia tambem: Max Gehringer

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Memórias do Século XXI - por Max Gehringer (Capítulo 3)

Capítulo 3

JORNADA

Trabalha-se oficialmente 2 horas por semana, mas já há rumores de que a jornada será reduzida para 100 minutos semanais. O que, tirando o tempo necessário para o sono e as inconveniências fisiológicas – que não sofreram alterações nos últimos 100 000 anos -, dá umas 120 horas ociosas por semana. O professor Domenico De Mais, que vive em estado de hibernação metafísica na Itália, afirma que isso é um absurdo, e defende a tese de que no futuro trabalharemos 100 minutos por ano. Mas o problema, mesmo é que nunca conseguimos nos acostumar com o ócio. Por isso, nossa maior fonte de renda atual é a hora extra – fazemos, em média, 14 delas por dia, inclusive aos sábados.

 
EFEITOS COLATERAIS

Hoje, megacorporações vêm se questionando se essa troca do trabalho grupal pelo individual foi realmente um progresso. Primeiro, porque ninguém mais conhece ninguém, já que os “colegas” viraram imagens digitalizadas. Segundo, porque todo mundo ficou sedentário e engordou uma barbaridade. E terceiro porque os antigos executivos eram estressados, e os novos sucumbem à depressão, o que acarreta muitos suicídios (ou, em linguagem ciberneticamente correta, self alt+ctrl+del). O maior guru de administração do século XXII – Tom Peters, vivendo confortavelmente em estado gasoso, num tubo de ensaio – publicou recentemente um artigo que está causando uma comoção corporativa. Ele defende a tese de que “nada substitui o contato humano”. Incrível, dizem seus fiéis admiradores, que ninguém tivesse pensado nisso ainda.
(continua)

Leia também: Max Gehriger


domingo, 6 de novembro de 2011

Memórias do Século XXI - por Max Gehringer (Capítulo 2)

Continuarei publicando aqui o texto de Max Gehringer "Memórias do século XXI conforme prometido, divirtam-se:

Capítulo 2

LOCAL

O sistema jurássico de trabalho era coletivo, e as empresas até usavam jargões como “team-work” para incentivar essas aglomerações, sem atentar para o fato de que elas eram uma fonte de proliferação de micróbios. O ponto de encontro era o escritório, um lugar onde os funcionários escreviam, daí a origem da palavra. Eram área enormes, onde pessoas se amontoavam em cubículos e passavam a maior parte do tempo produzindo “documentos”, cuja principal finalidade era a de servir como evidência física de que as pessoas estavam ocupadas. Após produzidos, os documentos eram imediatamente “arquivados”, de preferência em lugares onde nunca mais pudessem ser localizados. Isso na época tinha o mesmo nome de hoje, “burocracia”. A diferença é que os atrasados do século XX faziam tudo com oito cópias, e nós, 150 anos depois, conseguimos reduzir para sete.


INDIVIDUALIDADE

O primeiro passo para erradicar o coletivismo inútil foi o “SoHo” (Small Office, Home Office), uma sigla surgida aí por 2000, que permitia aos funcionários trabalhar, confortável e produtivamente, em suas próprias casas. No Brasil, uma das conseqüências imediatas do SoHo foi o aparecimento de uma variante esperta, o “SoNo”. O que obviamente implicou num aumento brutal da quantidade de documentos produzidos, porque só assim os chefes acreditariam que seus funcionários estavam acordados em suas casas. Depois do SoHo veio o “SoCo”, aí por 2050. O “Co”, todo mundo sabe, significa Chip Office. Foi quando as corporações conseguiram implantar um microchip em cada funcionário para controlá-lo 24 horas por dia, desde o batimento cardíaco até o nível de atividade dos neurônios. Uma das características do SoCo que mais agradou às chefias – além do comando de “wake up call” – foi a possibilidade de emitir um choque elétrico remoto quando o funcionário atrasasse a remessa de um documento.
(continua)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Memórias do Século XXI - por Max Gehringer

Começo hoje a postar aqui um excelente texto de Max Gehringer. Como é um texto longo, vou dividí-lo em capítulos. É um texto que analisa com bom humor a sociedade em que vivemos, e seu provável desenvolvimento futuro... É engraçado e sábio ao mesmo tempo. Vale a pena ler.

Capítulo 1

"Hoje é 20 de agosto de 2124, quarta-feira, que no Brasil agora se chama Wednesday, já que o português foi oficialmente banido quando nos tornamos o 67º Estado dos United States of Wide America, em 2095. Teve quem não gostou, claro, principalmente depois que a Floresta Amazônica se tornou a Tropical Disney World, mas a maioria apoiou porque finalmente pôde tirar passaporte americano sem aporrinhação e passou a receber salário em dólar. É verdade que muitos brasileiros ainda conservam um ranço xenófobo, o que é meu caso, por isso este relatório está sendo escrito em nossa antiga língua-mãe, que eu só domino porque nasci lá no distante 1980. Fiz 144 anos, trabalho há 126, estou forte e saudável, mas já ouço insinuações de que minha carreira entrou no plano vegetativo. A vida corporativa do século XXII não é justa com o pessoal da sexta idade, como eu: basta a gente chegar aos 140, e começa a ser discriminado no trabalho...

Os velhos tempos me dão saudade (uma de nossas poucas palavras que entraram no mega Dicionário Americano, como sinônimo para “senseless feeling”), apesar de quase mais nada ser como era. Por exemplo, eu nasci com unha, cabelo e dente últimos resquícios de nossa ascendência selvagem. E na juventude pratiquei zelosamente o ato denominado “sexual” para a reprodução da espécie, coisa que, hoje, a ciência simplificou muito: basta ir a qualquer Mcdonalds, comprar um kit de óvulo e espermatozóide (o número três tem sido o preferido pelos consumidores, porque acompanha uma coca-cola grátis) e inseri-lo num tubo plugado a um sistema embrionário – cujo nome técnico é “tamagoshi”. Aí, é só redigitar a configuração desejada do genoma e depois ir clicando os comandos para as cargas vitais de proteínas. Simples. Em seis semanas aparece a ficha fitoergométrica da criança, os custos de alimentação e educação e a mensagem “Are you sure you want to give birth?” Meu filho mais novo, o 365A27w648, vulgo “8”, agora deu de ser curioso e me perguntar por que no meu tempo as coisas eram tão complicadas. Eu tentei explicar para ele que o tal ato ia além da simples reprodução, que a gente sentia prazer em copular, e ele fez aquela cara de nojo, típica de adolescente recém-saído da universidade. Mas, tudo bem, ele tem só 4 anos, um dia talvez entenda melhor.

Eu sei, estou divagando, desculpem. Não é das reviravoltas da natureza que este relatório trata, e sim das relações no trabalho. Meu hiperboss vai fazer uma apresentação no Mês que vem, em Urano – com o criativo título de “Como Enfrentar os Desafios do Século XXII” - , e pediu minha colaboração. Ele quer mostrar às novas gerações a evolução da interação entre empresas e funcionários ao longo dos últimos 150 anos, desde a chamada “Era Jurássica Trabalhista” (1980-2020) até o aparecimento do “Homo Pizza”, no final do século XXI. E me escolheu porque eu vivi todas as etapas do processo, além de ser o único por aqui que ainda sabe usar algarismos romanos. Então, vamos lá:

TRANSPORTE

Os empregados acordavam de manhã e iam para seu local de trabalho dirigindo um veículo pesadão e lerdo, que funcionava queimando derivados do extinto petróleo, chamado “automóvel” – não sei bem por que esse nome, que significa “move-se por si mesmo”, já que o tal veículo só se movia sob comando humano e, algumas vezes, nem assim. Mas a maior dificuldade era enfrentar o “trânsito”, do latim transire, “ir para a frente”, e esse era exatamente o problema, já que o trânsito quase nunca ia em frente, e daí orioginou-se uma frase de uso muito comum, “Atrasei por causa do trânsito”, que literalmente significa ‘Fiquei para trás porque fui para a frente”. Ou seja, aquele povo era duro de entender. O mais incrível é que, apesar de tanta confusão e contrariando a lógica, as pessoas ainda conseguiam chegar ao que chamavam 'local de trabalho'".
(continua)

Max Gehringer

Max Gehringer (Jundiaí, 1949) é administrador de empresas e escritor, autor de diversos livros sobre carreiras e gestão empresarial. Tornou-se conhecido por suas colunas em várias revistas, na rádio CBN e no programa Fantástico, da TV Globo.

Começou sua carreira como office-boy na antiga fábrica da Cica, em Jundiaí. Graduou-se em Administração de Empresas. Foi escolhido como um dos 30 Executivos Mais Cobiçados do Mercado em pesquisa do jornal Gazeta Mercantil, em janeiro de 1999. Foi um dos cinco finalistas do prêmio Top of Mind em 2005 e 2006 na categoria Palestrante.

Em 1999, no auge de uma carreira bem-sucedida que o levou à direção de grandes empresas como Pepsi, Elma Chips e Pullman, Max Gehringer tomou uma decisão raríssima no mundo corporativo: abriu mão do poder e das mordomias de alto executivo para dedicar seu tempo a escrever e a fazer palestras pelo Brasil. Foi colunista das revistas Você S.A., Exame e VIP, todas publicadas pela Editora Abril. Hoje escreve para a revista Época e Época Negócios, ambas da Editora Globo.

O humor e a sensibilidade dos textos de Max vem de sua vivência prática num mundo que ele conhece degrau por degrau, desde o seu primeiro emprego, aos doze anos, como auxiliar de faxina, até o último, como presidente da Pullman. Escritor, colaborador da CBN e Exame, possuindo vasta experiência em gestão empresarial, no ano de 2007 a Editora Globo lançou o livro O Melhor de Max Gehringer na CBN — Vol. 1 — Col. Vida Executiva. Atualmente ministra palestras sobre motivação e liderança. Bastante requisitado em palestras para grandes empresas e sindicatos.
(fonte - Wikipedia)